É, no mínimo, impressionante e assustador como o tempo nos molda e transforma o nosso pensamento e como isso tem tão pouca importância. O dia em que escrevo agora é um ponto mínimo na cronologia do universo e arredores. Amanhã já não será hoje e o segundo agora já não é este. É como digo, assustador. Não podemos reviver o momento que já passou. Se o quisermos rever gastaremos tempo a fazê-lo e assim o tempo que podíamos estar a utilizar em algo produtivo estaremos a utilizá-lo em processar informação que o nosso cérebro já processou. Estaremos a refazer algo que já nos proporcionou o gozo necessário.
Anderson era um homem de sucesso, alguém que tinha uma fortuna material e material. Não tinha, no entanto, o que mais desejava: o amor. E o amor para Anderson era algo que nunca tinha experimentado. Durante toda a sua vida tinha culpado o seu próprio visual, o desenho da face e do corpo, pela falta de sucesso na tarefa de arranjar alguém com quem partilhar a sua vida.
No dia 13 de Março Anderson deu entrada no seu local de trabalho. Entrou no elevador e subiu até ao sétimo andar na companhia de um outro colega de quem nunca soube o nome. Encaminhou-se até ao seu cubículo, o terceiro à direita e sentou-se na cadeira. Desviou o olhar para a secretária e abriu bem os olhos. Uma caixa de cartão estava mesmo à sua frente. Algo que seria normal numa empresa, mas Anderson achou estranho. Rolou a cadeira para fora do cubículo e inclinou-se. Ninguém olhava para ele nem sorria portanto, pensou, isso excluía a hipótese de ser uma brincadeira. Voltou a sua atenção de novo para a caixa de cartão. Não era muito grande, era baixa mas larga, assemelhava-se bastante a um cano mas de forma rectangular. Não tinha nenhuma inscrição ou algo que a identifica-se.
Anderson pousou a mala que ainda tinha na mão e abriu a caixa de cartão. Centenas de pequenos calendários caíram sobre a secretária. Azuis, castanhos, pretos, brancos, vermelhos, de todas as cores e desenhos mas todos com o mesmo tamanho. Anderson voltou a olhar para fora do cubículo mas desta vez para se assegurar de que ninguém tinha notado o barulho dos calendários a cair. Pegou em alguns e folheou-os: eram todos de anos diferentes, 1987, 1568, 1762… Anderson duvidava que já existissem calendários de bolso em 1568 ou em 1762 mas o mais surpreendente era que também existiam alguns de anos futuros. Na verdade, parecia que não havia fim ao número de calendários que estavam na secretária e as centenas iniciais pareciam agora ser milhares.
No meio deles estava o calendário do ano corrente, com o dia 13 de Março assinalado. Estava também uma carta no fim do monte de calendários e Anderson leu-a:
“Estes são os anos passados e futuros assim como o presente. Existem até calendários de antes de Cristo mas nenhum de antes da humanidade. Existe também o último calendário que pertence ao último ano da humanidade mas esse é o mais difícil de encontrar. A tua secretária está cheia destes pequenos cartõezinhos e parecem-te milhares não é verdade? Mas que a tua visão e egocentrismo não te iludam, são apenas um. Um bocado mínimo na quantidade de calendários do Universo. E se isso é verdade imagina os anos que pertencem à tua vida no meio destes todos que os humanos viveram e viverão. É extraordinário como se mesmo que tenhas todos eles na mão, se olhares para a secretária parecerá que o monte continua com o mesmo tamanho e só aí te aperceberás da pequenez que é a tua vida. Então para que vale viver com racionalidade? O que fazes hoje não influencia o passado nem influenciará o futuro. Quando falo em futuro falo em milhares de anos de distância a partir de hoje, porque se for visto numa perspectiva abrangente então o teu futuro não se distingue do ponto ínfimo que é o teu presente e o teu passado…”
Anderson não conseguiu ler mais. Além de confuso sentia-se atordoado e o seu cubículo parecia ser mínimo e apertado. Pegou na mala e saiu do seu local de trabalho dando a justificação ao chefe de que não trabalharia mais naquele dia devido a alucinações.
No dia seguinte, Anderson foi atropelado e faleceu imediatamente a seguir a choque.
Assim morreu o único homem que alguma vez soube a verdade, mas que nunca a percebeu…
Peço desculpa a todos aqueles que achem este texto confuso, incompleto ou desorganizado mas a ideia que me atravessou no momento da escrita apavorou-me e é a mesma que confundiu o senhor Anderson.
Ass: Sousa